sábado, 17 de outubro de 2009

Venda de árvore


Vendo. 120 anos de vida em perfeito estado. Nunca deixou de fazer fotossíntese. Aceito financiamento pela Caixa.

Fiz do meu carro um jardim

Fizeram-me de bobo uma vez. Foi quando disseram que eu deveria salvar o planeta consumindo menos sacolas de plástico. Aceitei a idéia e me propus a ser o super-homem que salva o bem do mau, nesse caso o mau seria só a sacola de plástico. Fácil. Eliminei qualquer possibilidade de andar com sacolas de plástico, não foi lá muito difícil. Não foi o bastante. Fizeram-me então de bobo outra vez. Dessa vez, foi quando disseram que eu deveria aplicar meu trocado (o famoso “faz-me-rir” do início do mês) em um banco “100% ecológico”, que mostrava até mesmo vastas florestas em seus comerciais. Eles iriam plantar meu dinheiro para nascer árvores? Apesar de acreditar que algumas pessoas (bem poucas) colhem dinheiro no pé (a tão conhecida árvore dos juros), não foi difícil. Contudo, não foi o bastante ainda para eu salvar o planeta. Não por menos, novamente me enganaram. Para tanto me disseram que eu deveria plantar rosas no meu carro, para ele nunca mais poluir; muito pelo contrário, as rosas iriam funcionar como filtros, captando o gás carbono e liberando oxigênio. Era o último modelo de motor. Fiz sim do meu carro um jardim, apesar de rosas não terem nascido mas capim. Aí eu percebi que eles me enganaram igual um criança faz com a outra dizendo “olha um avião”, e sai em disparada. Pois enquanto eu procurava um avião no céu, eles faziam núvens cinzas com suas máquinas de fazer nuvens cinzas.

sábado, 26 de setembro de 2009

O mercado de trabalho dos chip's que substituíram as folhas

Certamente os novos chip’s que substituíram as folhas não trabalham direito. Nem adianta o sindicato autônomo das folhas reclamar maior sorte às secas e quebradiças folhas naturais relegadas ao desemprego, deitadas sob um chão qualquer. Até as novas tecnologias vêm perdendo espaço, os chip’s de folhas não fazem tão bem a fotossíntese como as ultranovas, por isso tomam o mesmo rumo que as velhas folhas. Longe do saudosismo dos imprestáveis aposentados de asilo. Dizem que este é um novo mundo, um novo mercado de trabalho, um novo rearanjo da economia mundial, uma nova forma das árvores se relacionarem com seus tentáculos. Os chip’s se tornaram obsoletos demais, e sua única serventia daqui pra frente será aquela ameaça que o patrão das folhas fazem a suas empregadas: não está vendo lá fora quantas folhas naturais e chip’s artificiais estão procurando um lugar ao sol? Só restará se resignar e voltar ao trabalho de absorver as luzes do sol.

Árvore de asfalto


Aconteceu um certo dia. Andava eu com algumas sementes, deixei-as cair. Plantei uma árvore no asfalto, e ela cresceu. Certo, aconteceu um dia. Como um pardal distraído, deixei cair algumas sementes. Um dia certo, aconteceu. E a planta menina, virou árvore de asfalto.

sábado, 8 de agosto de 2009

Sorriso

Andei desaparecido, roubando palavras. Deixei-me enganar por algumas histórias de sucesso. Nenhuma me fez sorrir, apesar dos autores insistirem nos altos salários que doravante recebem. Tive pena do meu modesto ordenado, percebi que sou um fracassado. Não terei dinheiro para trocar de modelo de carro todos os anos de minha breve vida. Não terei dinheiro para trocar de vestuário todos os dias de minha brevíssima vida. Enganaram-me até perceber que só precisava de uma coisa para viver: o sorriso.

domingo, 22 de março de 2009

Deveriam

Hoje pintei o céu. Não me preocupou nem a falta de emprego, nem outras tantas coisas cotidianas que me preocupam. Apenas peguei o pincel e pintei o céu. Poucos são capazes de vê-lo assim, como um quadro branco, virgem. Sei que posso ser condenado pelo que fiz, várias são as leis que punem quem transgride a hipocrisia da legislação. Não sei, mas aposto que existe uma lei, e se não tiver um deputado fará uma emenda à constituição, enjaulando aqueles animais que borram o céu. As igrejas tanto cristãs como anti-cristãs também desaprovarão, uma vez que pintar o céu é o mesmo que pixar o muro da casa de nosso senhor. Não quis fazer o mau, muito menos acabar com o patrimônio privado de nenhum senhor: só quis dar significado àquele azul. Infelizmente não ensinam na escola como pintar o céu. Deveriam.

terça-feira, 3 de março de 2009

A dor que já não me pertence


Quando eu cheguei, uma fila havia. Serpenteava o corredor até a cabeça do ser, um vidro, que separava os desvalidos ou os adoentados dos validos ou médicos. Resignei-me e fiz o sinal da cruz, uma fila havia. Meu pai me dizia, naqueles campos mineiros de longe, onde o sol fazia questão de oprimir, que não gostava muito de ir em lugares sem fila, não era para dar valia pois coisa boa não era. Meu pai... onde será que está? Gostava tanto de ouvi-lo tocar violão... agora, vendo de mais de perto, parecíamos, comigo já agregada, uma centopéia com seu corpo a revirar. Acordei com uma dor que já não sei onde está, ela faz questão de se mudar. O calor enxugava o ar da janela aberta. Como o ser humano se animaliza com a dor, uns rugem outros se encolhem, finalmente voltamos ao nosso estado normal, ao de animal, ao de caça, o que se fala doutor vira mendigo, mas pede é por outra natureza de ajuda. Estes mesmos, os que jazem sentados a me olhar, não duvido, se soubessem ou me reconhecessem enojariam a minha presença. Sou só. Sozinha, pelo menos, não dôo fome a ninguém.
Passaram-se não sei quanto tempo, minha dor se move, faz-me ofegar, faz-se e desfaz-se, lisa desliza sobre meu corpo, falta-me paciência. Mamãe já me dizia que esta vida não presta mesmo. Onde estaria mamãe? Gostaria de vê-la, posso até comprar-lhe um celular, hoje em dia todo mundo tem um, mesmo que seja de brinquedo. Já não suporto mais a dor, eles querem me comer por dentro, arrancar minhas tripas. Parece mamãe que todos eles agora debocham de mim, a minha dor já não mais me pertence, é deles o câncer, eles é que controlam-no. Vou-me embora, talvez seja mais seguro não ter quem me acuda. Foi aqui que mamãe e papai morreram, não conseguiram pegar a senha do hospital. Que iremos fazer né? Se eu soubesse que um número tinha tanto valor, eu tinha estudado um pouco mais para saber lê-lo.
Oh! Que cabeça a minha, tinha que trabalhar para não passar fome.