domingo, 21 de agosto de 2011

Céu quebrado

Quase não, nunca mais consegui distinguir quantas qualidades de céus podem existir. Os arranha-céus não podem ter outros nomes. Tenho a sensação que despedaçaram o ceu, descoloriram o acima de nós, para não percebermos que fazemos parte de algo maior. E nem acho que fizeram isso grandes revolucionários, ou conservadores dependendo de que lado da partidocracia você se encontra, acho sinceramente que fomos nós que picotamos o céu para esquecermos que é de lá que vem água, calor, rezas, e não de torneiras, lâmpadas ou imagens. Não perceberam que não é através de torres-escadas que as núvens se tornaram menos densas? O céu se caledoscopiou entre muros infintos que construímos para nos labirintar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A disputa pela felicidade

Já tinha se transformado em um forno aquele jaleco ou beca, como diziam os doutos ao meu lado. No microfone, uma professora que sabia que suas palavras não estavam sendo abstraídas pela plateia preocupada com a falta de ventilação naquela boate transfigurinada em auditório. Se ela sabia por que continuava?

Seguiu-se todo o protocoloco cortesão/presidencial de entrega de canudos: suportei quatro anos de trabalho em uma locadora de filmes, que com a quebra do monopólio dos DVDs passou a ser também cafeteria, lan-house, sex-shop até abrigar um restaurante a quilo; suportei ter que todo mês me contentar com dez reais para as despesas extras - transporte, alimentação, livros (também de pantete quebrada) e outros artigos de luxo como roupas. Aquele canudo representava tudo isso, todo esse esforço... o choro quis arrebentar a barreira das pálpebras. A professora que entregou o canudo disse-me "parabéns" e continuou em seu rítmo industrial a dizê-lo aos outros doutos colegas meus.

No fim abri finalmente o canudo. Nada tinha escrito. Pensei que fosse mais um título na minha vida, pensei que tivesse subido ao pódium, pensei que tivesse ultrapassado algum de meus colegas no campeonato de curriculum vitae. Mas era só um papel, em branco. Ainda bem que o diploma será entrege, assim conseguirei somar pontos na disputa pela felicidade

domingo, 7 de março de 2010

A tele(in)visão

Aconteceu no dia em que Boris Casoy insultou os dois garis no ano novo de 2010. Todas as tvs passaram a não mais evitar os comentários injuriosos de seus microfonados. Pensou-se, como o próprio Boris, que havia sido problemas técnicos-lógico da já obsoleta fábrica de chocolate informativo. Mas logo o sistema foi vasculhado e provou-se por a mais b que o problema nunca fora problema, ou tiu-ti na linguagem informágica, da máquina. Caiu-se então para os operadores das máquinas. Uma conferência então foi montada, todos os operadores de áudio do Brasil foram convocados a uma audiência com os donos das máquinas e das televisões: os Marinho na Globo, os Santos no SBT, os Saad na Band. As dinastias teleinvasivas cobraram explicações dos operadores das máquinas de áudio. Porém nada ficou comprovado, e um documento assinado por todos os operadores operários dizia que não eram eles os responsáveis pelo desregulamento das falas no microfone. Para desossego dos Césares da informação, a televisão estava fadada a desinformar. Como uma lua que resolveu girar em sua órbita e revelar o seu íntimo, o lado invisível, a televisão, por milagre diziam os igrejosos, por evolução diziam os cientistas da computação, por vocação diziam os antigos socialistas, passou a emitir todo e qualquer pensamento daqueles que nela enjanelavam-se. No começo a população tomou aquilo como uma brincadeira, mas logo se enraivaram. Não era os comentários sarcásticos sobre garis, operários, sem-terras, mendigos, ou qualquer coisa que não eles mesmos aparecessem na tela, que as gentes se revoltoram. Eles já estavam cansados com aquilo. Ouvi dizer que a televisão não mais dizia a verdade. Alguns até queimaram tvs em praça pública. Saudade do tempo em que tudo era dito naquela verdade que todos estavam acostumados ouvir.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Aristides

Aristides cansado de tantos alagamentos passou a morar no telhado. A chuva, como vizinho indesejado, batia-lhe a porta todos os dias às três horas da tarde. Nos primeiros dias, não acreditava nas visitas posteriores. Mas não teve jeito. Tentou se acomodar, comprou até um bote, dois cilindros de oxigênio para se locomover mais rapidamente em casa. Até que quando durmia e boiava ao mesmo tempo foi surpreendido por uma cobra. Aquilo foi inaceitável. Contratou dois rapazes que se especializaram em mudanças aquáticas e foi viver tranqüilamente no telhado. Nunca mais se preocupou com a chuva.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Um caxambu na fazenda do Secretário - 1872, Vassouras



Fazenda do Secretário, propriedade da Baronesa de Campo Bello, uma das maiores senhoras de escravo de Vassouras. Era noite de um dia de 1872, o escravo Lino foi levar azeite da outra fazenda da baronesa, do Retiro, para a do Secretário, quando foi convidado pelos outros escravos para tomar posição na festa que faziam depois das tarefas realizadas na lavoura de café.[1] Caxambu era um festejo e também um instrumento musical, um batuque. Este como outros tipos de festas, muitas vezes acompanhados de ex-escravos e também por homens e mulheres livres, era um momento em que trocas culturais se faziam presentes, local de paixões e também de muitos conflitos.[2] Lino decidiu ficar. A aguardente era indispensável e foi servida abundantemente. Cercou-se de um conhecido escravo da fazenda chamado Félix e com ele ficou conversando durante a festa. O batuque adentrava o final de noite e início da madrugada, quando gritos foram escutados. Lino e Félix travaram de repente uma briga; o primeiro arrancou uma faca improvisada, que costumava servir para limpar o vagão do trem, do qual era maquinista, e feriu Félix. Escravos especializados como o maquinista Lino eram tratados com muito prestígio, mais do que os escravos da lavoura de café, por isso fora ele que se deslocou de uma fazenda para outra, levar azeite, numa clara demonstração de flexibilidade na relação com a baronesa de Campo Bello. Gozava de prestígio tanto junto a baronesa quanto aos outros escravos, e quem sabe a querela de Félix tenha sido justamente esta: ciúme em relação à sua posição privilegiada naquela comunidade de escravos. Apesar de nunca terem se tornado uma barreira para as relações entre escravos, a diferenciação no seio de uma comunidade de escravos poderia trazer alguns conflitos, pois é esperado por aqueles que compõe um grupo certas condutas e os que se distanciam desta espectavia podem vir a ser hostilizados.[3] Contudo, não se sabe o motivo da briga, que foi evidentemente fomentada pela coragem que o álcool produz. A baronesa de Campo Bello provavelmente induziu seus escravos a culparem a aguardente pelo ocorrido, afinal de contas se tratava de um dos seus escravos mais valiosos, um maquinista, que se fosse preso lhe daria um prejuízo enorme. O cotidiano do oitocentos era permeado pela violência, o que não faz desta sociedade uma barbárie, um “salve-se quem puder”, mas que tanto escravos quanto não-escravos utilizavam-na rotineiramente em situações de conflito.[4]



[1] Como destacou Charles Joyner, o sistema de tarefas fazia com que os escravos tivessem trabalho durante o dia inteiro, muitas vezes sobrando o fim de tarde para que, em alguns dias, depois das tarefas realizadas, os escravos pudessem festejar. Charles Joyner, Down by the riverside.
[2] Marta Abreu, O império do divino.
[3] Para entender melhor as comunidades de escravos na Carolina do Norte, Charles Joyner propõe o que chamou de degraus de solidariedade no qual os escravos resistiam e acomodavam-se cotidianamente. Charles Joyner, Down by the riverside
[4] Código do sertão, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Homens livres no sistema escravocrata.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O futuro

E se a escravidão acabar, será que encontraremos trabalho?

A divisão

Não posso errar. ainda existe os que acreditam que temos todos os mesmos direitos. acho que não: existem os que podem errar muito, e os que não podem nem uma vez errar.