quinta-feira, 22 de maio de 2014
Conselho
Um conselho: descongele seu peito e as palavras vão cair-lhe como cachoeira, precipitadas, principintadas.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Mal-forriada liberdade
Foi no mesmo dia da minha mal-forriada liberdade. Assim que empistolou-se-me em cartoriografia, o senhor virou-se ao plantel e proferiu, ferindo: "cada um sabe onde o calo dói". Não ouvi, só quando ouviram dizer, e me disseram, mas estava ainda com a doença da polissemia, costumeira em tempos de cativeiro. Era a única maneira de se manter vivo, adoecendo de trocar os sentidos das palavras. Polifônico, ainda desacreditando, fui ao sapateiro para comprar a outra parte da liberdade: pois sim, liberdade se compra. Voltei a casa do senhor, liberto de calçado apertados, acriançados. Nada falei, pensei em falar, mas aprendi panhar sem gritar: pé de escravo é pedra dura feito coração de senhor.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Pai
Então, era isso, pai, ser quando crescer: tábua de entortar pregos? Então, era isso, pai, o que nunca perguntei e sempre me respondeu?
quinta-feira, 10 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Hematita, diamante-negro
Estava em seu quarto asenzalado, mas não morava na senzala, apesar de agrilhoada. Chovia, chorava. Nem o céu lhe permitiu o direito de ser ela. Carregava às mãos nessa sua chuva, uma hematita, naquelas terras chamada diamante negro. Fora presente de seu irmão, liberto e muleiro. Quando chorar, lembre-se que é um diamante, uma negra diamante, disse Felisberto ao lhe entregar o regalo. O relho, bacalhau de Balbino, que não lhe fazia rogado: lambia suas costas feito pantera, pantera negra Balbino. Escravos de Capitão Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, assim de mesma propriedade, mas mesmo assim irmãos-de-leite. Não soubera sua culpa, não podia então formar desculpas. Balbino balbuciou nem uma palavra, fez o que a ele era devido, a juros, chibatar. Domesticada, escrava da vergonha de ser levada ao tronco, em seu quarto, tentou dar cabo de sua vida. Guardara sua própria cicuta: o leite e a manga. Bebeu o veneno. Chovia, chorava. Adormeceu, acordou quando a neblina da noite ainda irrigava a madeira da janela. Abriu a mão, a hematita, sementembrião de si, reluzia: tudo que reluz, renasce, não necessita ser ouro.
domingo, 30 de março de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)


