A cultura brasileira educacional é a junção de exilados e asilados, sempre aprisionados por si mesmos em muros e grades em janelas. Adolescentes e crianças aprendem bem cedo o valor do sinal, do apito, da contagem do tempo industrial, da desiniciativa quando se percebem velhos-jovens vivendo dentro de um asilo, sendo tratados como doentes por seus professores-enfermeiros, que lhes trocam a frauda, exilados de um mundo em que o pensamento é importante. Jovens e adultos continuam aprendendo nas universidades o valor da cópia, da produção em larga escala de trabalhos de internet (e para esses, Saramago, a internet salva o mundo), taylorando e fordizando quando se percebem velhos-adultos vivendo dentro de um asilo, onde recebem tratamento de camundongos competidores, dispostos a serem melhores que outros camundongos em suas esteiras de corrida infinitas, exilados políticos da luta cotidiana por melhores condições de vida. Escola e universidade são dois mundo separados, sem ponte que os alcancem, porque foram fundados para fins diferentes, nenhuma com intenção de educar-criar-perguntar: a escola para exilar e asilar professores, incompetentes de amar o próximo e a alpinista oportuno, aprendiz de burocrata; exilar e asilar, filhos de pais medíocres, incompetentes de amar o seus próprios filhos, porque deles querem distância; a universidade para exilar e asilar professores esquizofrênicos, professores não-professores, professores-pesquisadores, como se a pesquisa não fosse parte do ser humano, que desde seu nascimento é colocado diante de problemas que busca resolver; para exilar e asilar alunos sempre do futuro, graduandos, mestrandos, doutorandos, pós-doutorandos, que nunca acabam de subir escadas imaginárias para satisfazer o desamor de seus pais, que os colocaram em asilos escolares, exilados do mundo.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Chinelo
Cresci envolta de meu chinelo, pode-se dizer, ou poderia dizer mamãe, Sua avó não podia nem se descalçar porque nunca fora calçada. Calçadas rasparam meu chinelo ao mesmo tempo em que lhe servia de batuque, que me levava ao quintal de vovó, galinhas, milhos e árvores. Tenho saudades dos meus pés pequenos emoldurando a borracha resistente daquele chinelo.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
Dias de asfixia
Acordou, foi para a cozinha se abastecer com gasolina. O álcool o deixava resfriado naqueles tempos de frio. Em ponto morto foi novamente dormir e pedir a papai do céu que não acabe com os poços de petróleo. Está feliz com os economistas: insistem no crescimento industrial. Dias sem mato, sem mata virão, dias de asfalto, dias de asfixia verão.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Vip
Por todo tempo ela me olhou. Por todo tempo em que permaneci na sala vip, ela me trespassava os olhos, como se fôssemos velhos amigos que não querem se encontrar. Seus olhos sentiam vergonha de estar ela em uma sala very importante people, convencida por si e pelos outros que não fazia parte nenhuma na cadeia evolutiva do homem, essa também vip. Mas me concentrei para não deixá-la discriminar e ela se esforçava para isso também. Como ela não pode também se sentir importante? Quem disse a ela que ela não é importante? Quem teria essa autoridade? Afinal, passamos a vida inteira tentando ser importante para alguém, mesmo que seja só para nós mesmos. Ela não permaneceu por muito tempo very importante people, mas seus segundos aqui foram muito importantes para ela mesma, se não a outras de sua espécie. A mim mesmo.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Parei de contar na décima
Saí do tribunal direto para a carceragem. Fui condenado a duzentas chibatadas, mas parei de contar na décima, quando o sangue me fazia falta. Assim dizia meu sumário crime: Ano do Nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo
de mil oitocentos e oitenta, aos vinte e dois de Abril, nesta Cidade de
Vassouras, o promotor público vem denunciar o escravo Máximo por ter entrado na casa de negócios de Manoel José Gonçalves e subtraído objetos. Uma lata de goiabada, capilé (refresco) e ovos de galinha, eram os objetos furtados. Quando os guardas me algemaram, ouvi uma voz lá no fundo, talvez do dono da venda: vai ser preciso construir mais cadeias. Resignei-me, afinal, como escravo, já haviam me roubado a liberdade no ventre cativo de minha mãe. Quantos mais negros precisarão enjaular para se satisfazerem?
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A quem prometi ser terra de ninguém?
Sou eu quem invento e escolho meus inimigos. Construo e eletrifico meus muros. Se Muros de Berlim, da Cisjordânia, de Tijuana ou das Lamentações são, depende de momentos. A quem prometi ser terra de ninguém?
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