quarta-feira, 18 de junho de 2014

O vazio por dentro


Situação que vem a encalhar, nesse descompasso de copa. Acontecido de Jesus era na infância menino arisco de bola, o anjo dos pescoços tortos, assim o chamavam, já que ninguém seguia, com ou sem a guia, os passos que dançava com o adversário. Muito prometido, das velhas de vidraças quebradas, das meninas de saias rodadas, essas já imaginando-se Xuxas de um Pelé. Mas a maior barreira que encontrava eram seus pais: naquela pobreza a única saída era o estudo. Toda bola é feita de ar, grávida psicológica, enfeiticeira de crianças, amedrontavam Acontecido. No entretanto, deixou-se levar pelos cruzamentos. Fugiu de casa como futeboleiro de campo de concentração: viciou-se deliberadamente jogador. Hoje no atualmente, Acontecido de Jesus é um dos melhores jogadores, mais ricos do planeta, poses e posses. Seus pais ainda choram ao relembrar o acontecido. Quantas bolas não furaram para demonstrar o vazio por dentro?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Jão, o kami-quase

Em atitude verbal mais-que-versiva, talvez subversiva, Jão Modesto desovou a pelota de capota, em gomos, quase engomada, que se fazia lado-escuro da lua em um porão empoeirado de sua casa. Saiu feito capitão, mais militar do que militante, na rua convocando seleções. Nesse tempo, não se podia falar de pelada, a não ser de mulher-pelada, essa sim, assovio de bocas-pequenas quando Laurinda Então se foi buscar na sorte amores vívidos. Mas trivela, caneta, lambreta, foram metáforas proibidas, e Lêonidas da Silva, padeiro de bicicleta, tivera que se refugiar em Quem Sabe Onde, cidade que todos ouviram falar mas nunca carta chegara. Jão, tão somente, decidira que era preciso acabar com aquela paz celestial: a bola colocara no capim, mas seu efeito transformava-o, transtornado, em um kami-quase diante do tanque. Mesmo assim correu, correu ao encontro da bola gravidíssima, com a força mítica dos canários: viu voar a bola travessa por cima do travessão. Indesistido, foi buscá-la na bananeira, de onde dizem as más linguagens, macacos acéfalos jogavam bananas aos inimigos da pátria em pretéritos de outrora. Conta-se, em documentos orais secretos, que o costume em derrota do time da casa, contradizer: aos vencedores as bananas. Nem tempo teve Jão Modesto de conferir se quem come banana podre morre de caganeira, apontado foi por todos aos militantos. No entanto, nenhuns ficaram sabendo o fim ou que fins deram a Jão, pois finados dois meses de sugestiva censura, a bola voltou a ser o fim de si mesma, a alegria do povo e a felicidade geral da nação. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Conselho

Um conselho: descongele seu peito e as palavras vão cair-lhe como cachoeira, precipitadas, principintadas.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Mal-forriada liberdade

Foi no mesmo dia da minha mal-forriada liberdade. Assim que empistolou-se-me em cartoriografia, o senhor virou-se ao plantel e proferiu, ferindo: "cada um sabe onde o calo dói". Não ouvi, só quando ouviram dizer, e me disseram, mas estava ainda com a doença da polissemia, costumeira em tempos de cativeiro. Era a única maneira de se manter vivo, adoecendo de trocar os sentidos das palavras. Polifônico, ainda desacreditando, fui ao sapateiro para comprar a outra parte da liberdade: pois sim, liberdade se compra. Voltei a casa do senhor, liberto de calçado apertados, acriançados. Nada falei, pensei em falar, mas aprendi panhar sem gritar: pé de escravo é pedra dura feito coração de senhor.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pai

Então, era isso, pai, ser quando crescer: tábua de entortar pregos? Então, era isso, pai, o que nunca perguntei e sempre me respondeu?

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Piegas-me

- Não sei, padre, se peco ou se piego: sinto felicidade em errar.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Hematita, diamante-negro

Estava em seu quarto asenzalado, mas não morava na senzala, apesar de agrilhoada. Chovia, chorava. Nem o céu lhe permitiu o direito de ser ela. Carregava às mãos nessa sua chuva, uma hematita, naquelas terras chamada diamante negro. Fora presente de seu irmão, liberto e muleiro. Quando chorar, lembre-se que é um diamante, uma negra diamante, disse Felisberto ao lhe entregar o regalo. O relho, bacalhau de Balbino, que não lhe fazia rogado: lambia suas costas feito pantera, pantera negra Balbino. Escravos de Capitão Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, assim de mesma propriedade, mas mesmo assim irmãos-de-leite. Não soubera sua culpa, não podia então formar desculpas. Balbino balbuciou nem uma palavra, fez o que a ele era devido, a juros, chibatar. Domesticada, escrava da vergonha de ser levada ao tronco, em seu quarto, tentou dar cabo de sua vida. Guardara sua própria cicuta: o leite e a manga. Bebeu o veneno. Chovia, chorava. Adormeceu, acordou quando a neblina da noite ainda irrigava a madeira da janela. Abriu a mão, a hematita, sementembrião de si, reluzia: tudo que reluz, renasce, não necessita ser ouro.