Lembram-se que as rosas não falam? Dos versos de avó, coralinos, a nos embalar com histórias de que nada faz sentido se não tocarmos o coração das pessoas? Lembram-se das sem-razões do amor, que o amor é primo da morte, e da morte vencedor, que por mais que o matem (e matam), a cada instante de amor? E de Gandhi a nos dizer para ensaiar um sorriso e o oferecer a quem não tem nenhum? Não se lembram? Não devem ter tido tempo para isso. A vida é muito dura para quem precisa sempre reconstruir desculpas para desamar.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Placas tectônicas de xerume
Flores de plástico inundam shoppings centers. Uma praga faz com que flores de plástico se reproduzam em todas as cidades. O mistério só foi desvendado depois da descoberta que estamos acima de placas tectônicas de xerume. A ameaça parece ser séria, apesar da imitação de flores agradar os olhos de muita gente.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
A maldição
Foi culpa de Caim, filho de Adão e da sua costela. Revoltado porque seu irmão Abel ganhara playstation, o filho da costela de Adão, assassinou seu irmão. Desde então, comemora-se o dia das crianças. Algumas nem bem germinam são logo submetidos a presentes, pelo pavor de se tornarem crianças assassinas. Mas alguns pais descuidados se esquecem da maldição, e nos noticiários somos bombardeados com notícias de mortes que saem das mãos que nem conseguem segurar arma.
domingo, 9 de outubro de 2011
O tupinambá
O tupinambá ainda está sem resposta. Em um dia de 1558, ele se virou para o francês Jean de Léry e perguntou: "Por que vindes vós outros, mairs e perôs (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Porventura precisais de muito? Mas esses homens tão ricos de que me falas não morre? E quando morrem para quem fica o que deixam?"
Há mais de 400 anos, essas perguntas seguem sem respostas.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Menino dos olhos infinitos
Era dia do resultado do jogo-do-bicho e tinha minha mãe apostado no lobo, nem sabia que existia lobo neste cassino animal. Ela ganhou seus cem reais, foi dia de festa na minha casa, teríamos direito a sonhar com um almoço mais luxuoso, mais do que nos dias de festas de papai Noel, quando ele nasceu na manjedoura para a partir daquele momento distribuir roupas usadas, feijão e outros alimentos às famílias da minha rua. Não calendarizava nenhuma festa especial, se não fosse dia de Oxum. Dizia minha avó que logo que todos os Orixás chegaram a terra, organizavam reuniões das quais mulheres não podiam participar. Oxum, revoltada por não poder participar das reuniões e das deliberações, resolveu mostrar seu poder e sua importância tornando estéreis todas as mulheres, secando as fontes, tornando assim a terra improdutiva. Foi porque talvez minha família não tivesse feito bori devido a Oxum e agradecido aquele dinheiro que sucedeu o acontecido. À noite, dois homens entraram em meu lar e roubaram a alma de minha mãe, levaram o dinheiro e me deixaram com os olhos infinitos. A partir desse dia, tudo ocorreu como se a realidade se vertesse em lenda, e hoje não distingo o que aconteceu do que eu sonhei. Apesar de tudo, fui nascido outra vez no acariciar e no sorrizar de uma outra mãe, se não me amamentou me deu novos olhos, como a cada palavra lagrimasse minha retina, inundando aquele deserto estéril que fora atracar meu barquinho. Sem falar de novos corações que vieram a ritmar com o meu, o de minha irmã e de meu irmão mais novos. Certa vez uma senhora tentou me jogar ao infinito outra vez, na imensidão solar das areais, ao narrar a história dos meus olhos, mas logo o barulho de minha mãe sorrindo me fez despertar e fazer daquela velha piada de picadeiro. Sigo esta vida agora, a pedir que minha mãe antes de dormir venha me acariciar com seu riso.
domingo, 2 de outubro de 2011
Solitário chão
Era um lugar que ficava para além de todas viagens. Por ali só o vento passeava, aguamente. Naquele solitário chão há muito que o tempo envelhecera, avô de outroras. Testemunhas? Só Deus, se estivesse vago. Não se rasgava o silêncio, de repente se escutava a voz da poeira. O amanhã carecia de comprovação, o passado de véspera. Foi quando Antônio Klemav aportou por aquelas estradas. Trazia consigo uma caixa de fixar o tempo: dizia aos anabitantes que estava a procura de raízes do Brasil, das muitas origens, daquilo que sobrou do início daquele maravilhosíssimo país. Poucos deram os ouvidos, muitos os guardaram. Falava de um novo futuro, mas as despessoas daquele lugar nem haviam sequer pensado no velho. Seria arrebatador, e por isso Klemav estava ali. Não se espantou diante de repetidas negativas, quem entendia aquele bando de zés? Voltou ao altar da uninverocidade, muitos acadêmicos lhe davam importância. Após enroscar tantos nomes e tantos escritos, sentenciou: o campo se terminava, em súbito desmaio. E foi aplaudido, por duas ou três pessoas, seus alunos, claro, ganhariam bolsas, claro, e passariam a vida toda a bater as duas frentes das mãos até que as bolsas terminassem, claro.
sábado, 1 de outubro de 2011
Perdi a voz
Perdi a voz. O sangue escorria, descia até lençóis subcutâneos da terra. Não eram médicos a operar, eram operários a medicar a eutanásia através de escavadeiras e retroescavadeiras. Milenar, as raízes escondiam-se para não serem achadas pelas lâminas, e venciam a batalha pelo tamanho de sua ancestralidade. Em cidades hipermodernas não precisamos mais reverenciar nossos antepassados. As árvores viram circo, artefato de decoração; sem mais pulmão para aguentar nuvens de gás carbônico, acabam adoecendo, cânceres de todos os tipos são diagnosticados. Falecem, viram túmulos a nos fazer lembrar que nem sempre as coisas foram assim. E por isso, incomodam. Quem gostaria de testemunhar nosso fracasso em nos humanizar, em nos harmonizar? Perdi a voz, não só a ver em minha frente aquela tragédia, perdia a voz por não poder mais sensibilizar ninguém com este discurso.
Assinar:
Postagens (Atom)
