domingo, 22 de março de 2009
Deveriam
terça-feira, 3 de março de 2009
A dor que já não me pertence
Quando eu cheguei, uma fila havia. Serpenteava o corredor até a cabeça do ser, um vidro, que separava os desvalidos ou os adoentados dos validos ou médicos. Resignei-me e fiz o sinal da cruz, uma fila havia. Meu pai me dizia, naqueles campos mineiros de longe, onde o sol fazia questão de oprimir, que não gostava muito de ir em lugares sem fila, não era para dar valia pois coisa boa não era. Meu pai... onde será que está? Gostava tanto de ouvi-lo tocar violão... agora, vendo de mais de perto, parecíamos, comigo já agregada, uma centopéia com seu corpo a revirar. Acordei com uma dor que já não sei onde está, ela faz questão de se mudar. O calor enxugava o ar da janela aberta. Como o ser humano se animaliza com a dor, uns rugem outros se encolhem, finalmente voltamos ao nosso estado normal, ao de animal, ao de caça, o que se fala doutor vira mendigo, mas pede é por outra natureza de ajuda. Estes mesmos, os que jazem sentados a me olhar, não duvido, se soubessem ou me reconhecessem enojariam a minha presença. Sou só. Sozinha, pelo menos, não dôo fome a ninguém.
Passaram-se não sei quanto tempo, minha dor se move, faz-me ofegar, faz-se e desfaz-se, lisa desliza sobre meu corpo, falta-me paciência. Mamãe já me dizia que esta vida não presta mesmo. Onde estaria mamãe? Gostaria de vê-la, posso até comprar-lhe um celular, hoje em dia todo mundo tem um, mesmo que seja de brinquedo. Já não suporto mais a dor, eles querem me comer por dentro, arrancar minhas tripas. Parece mamãe que todos eles agora debocham de mim, a minha dor já não mais me pertence, é deles o câncer, eles é que controlam-no. Vou-me embora, talvez seja mais seguro não ter quem me acuda. Foi aqui que mamãe e papai morreram, não conseguiram pegar a senha do hospital. Que iremos fazer né? Se eu soubesse que um número tinha tanto valor, eu tinha estudado um pouco mais para saber lê-lo. Oh! Que cabeça a minha, tinha que trabalhar para não passar fome.
Passaram-se não sei quanto tempo, minha dor se move, faz-me ofegar, faz-se e desfaz-se, lisa desliza sobre meu corpo, falta-me paciência. Mamãe já me dizia que esta vida não presta mesmo. Onde estaria mamãe? Gostaria de vê-la, posso até comprar-lhe um celular, hoje em dia todo mundo tem um, mesmo que seja de brinquedo. Já não suporto mais a dor, eles querem me comer por dentro, arrancar minhas tripas. Parece mamãe que todos eles agora debocham de mim, a minha dor já não mais me pertence, é deles o câncer, eles é que controlam-no. Vou-me embora, talvez seja mais seguro não ter quem me acuda. Foi aqui que mamãe e papai morreram, não conseguiram pegar a senha do hospital. Que iremos fazer né? Se eu soubesse que um número tinha tanto valor, eu tinha estudado um pouco mais para saber lê-lo. Oh! Que cabeça a minha, tinha que trabalhar para não passar fome.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Dois pardais
Aconteceu há uns dois anos atrás. Estava eu aqui sentado, vendo as veleidades televisivas. Não achava algo para me ver. Sempre existiram 28 canais neste aparelho. A globo era a número um, o SBT o dois, a Record a três, a Rede Tv a quatro, a Band a cinco e assim sucessivamente como os jornais dizem que é para ser, em ordem de desimportância. Obedeço mais por acomodação do que por consciência. Não é que neste dia mesmo, de repente, durante meu movimento rotatório do controle remoto apareceu-se (porque foi sozinho, poderíamos colocar o pronome reflexivo, dizem os gramáticos) o canal 29. Pára-raios em dias de sol, a parabólica renasceu. Acho que foi o sentimento de remorso. Explico. Não fazia muito tempo, um casal de pardais fez sua casa bem no centro da parábola, ali se amaram durante algumas noites. Os dias serviam para voarem livres como a naturaleza – esta é a palavra mais bela do espanhol, dentre as muitas, assimila natureza com realeza – lhes disse que era para se fazer. Pois não foi num dia de trovoadas que um raio fez cair na rede do guarda-chuva ao revés os dois pássaros. A fêmea estava grávida, fui saber no outro dia ao amanhecer. A partir deste dia, parece, não comprovo por ciência mas por consciência, que o receptor de ondas transmutou-se em ser vivo. Vivacidade fê-lo raízes, fê-lo caule, fê-lo galhos, fê-lo esverdejar. Neste sentimento de ser-pensante porque sente, neste sentimento de mãe que se refaz da perda de um filho, redobrou as forças e criou. Do ventre elétro-magnético emergiu seu filho, o nome dado como canal 29. Foram muitos meses, anos, sem nada transmitir, como se aquele negro representasse seu sentimento de tristeza, de retiro. Quedei-me todas as noites à espera de algo que ser-me-ia dito. Então ontem, quando trovejava, sintonizei o canal 29, e uma imagem de dois pardais que voavam num céu límpido me atravessou a retina. Foram segundos até que a televisão se nubladejasse, parece que foi o fim de uma felina.
- Não se preocupe senhor. Com certeza foram os raios que deram uma sobrecarga no seu aparelho de televisão. Se não atingiu os outros componentes eletrônicos centrais, rapidamente to devolverei. O técnico me disse.
Não costumo acreditar nos técnicos em eletrônica, falta-lhes humanidade. Não me preocupo mais com o que perdi, aprendi, sim, a respeitar a humanidade daquele ser-vivo.
- Não se preocupe senhor. Com certeza foram os raios que deram uma sobrecarga no seu aparelho de televisão. Se não atingiu os outros componentes eletrônicos centrais, rapidamente to devolverei. O técnico me disse.
Não costumo acreditar nos técnicos em eletrônica, falta-lhes humanidade. Não me preocupo mais com o que perdi, aprendi, sim, a respeitar a humanidade daquele ser-vivo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Repensando o outro mundo
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Eu-deus
Resolvi brincar de Deus
Criei meu próprio jardim
Em vez homens, caramujos
Não precisariam de terras
Casa nas costas
Não precisariam fronteiras
Casas nas costas
Imensidão não será cinza
Verde sim.
E a carne de outrem
não terá vontade de comer
Nas suas cozinhas só se faz
ervas, frutas, folhas
Nem gostaria que os caramujos lembrassem-se de mim
Ao invés de igrejas para me louvar
ficaria mais feliz que cuidassem desse meu jardim
Para o verde não amadurar
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
A nova lenda de Sísifo
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
A fruta-pedra
Era uma fruta-pedra. Nascera de ventre vegetal, mas pertencia ao mundo do concreto. Chegara à fase madura sem que nenhuma pessoa a percebesse, com a velocidade que nos movemos cotidianamente nem mais se dá conta do sol, da lua, das estrelas, quanto mais de uma fruta. Frutas nascem todos os dias e amadurecem cada vez menos, não conseguem chegar à idade adulta pela evolução que os homens a impuseram. O azedume impregnou-se no mundo das almas dos frutos que não conseguiam mais dar à luz a filhos iguais aos de muito antigamente. A fruta-pedra era a evolução da espécie, era a cor do progresso. Cinza são os nossos anos, cinza são as feridas que petrificaram-se tanto nos organismos vegetais que seus cachos agora penduram pedras. A tristeza da mãe que concebia aquele filho cor asfáltica foi alimentada pelas águas-mágoas ou pelas mágoas-águas que subiam em seus corpos, vinham de baixo vinham de cima. Por isso, não fora a fruta-pedra criação somente da natureza, fora uma criação das mais felizes para os sempre sedentos construtores de prédios. Como sua cor, a nova espécie nada tem de original, como filha da terra e do concreto. É a metáfora daquilo que o homem transformou e transformou-se, num semeador de cinzas.
Assinar:
Postagens (Atom)
